sexta-feira, 19 de outubro de 2012

0 Os sinais específicos da segunda vinda Cristos


A igreja de Tessalônica cometeu dois sérios equívocos acerca da doutrina da segunda vinda de Cristo. Ambos perigosos, ambos injustificados e de consequências desastrosas. Quais foram esses equívocos? Examinaremos esse importante assunto à luz de 2 Tessalonicenses 2.1-12.

Primeiro, o equívoco de marcar datas quanto à segunda vinda de Cristo (2 Ts 2.1,2). Alguns crentes de Tessalônica estavam sendo enredados pelo engano, pensando que a vinda de Cristo já acontecera. Eles fixaram uma data e na mente deles essa data já havia chegado.
Paulo já havia ensinado a igreja sobre a segunda vinda (I Ts 2.19) e a necessidade de estar preparado para ela (I Ts 5.1-11), mas eles confundiram a vinda súbita com uma vinda imediata. O problema dos tessalonicenses não era a questão da demora da parousia, mas, sim, sua crença de que estava esmagadoramente iminente.
Após a leitura da primeira carta de Paulo à igreja, é bem provável que alguns intérpretes fantasiosos tivessem chegado a essa equivocada interpretação e perturbado a igreja com suas conclusões. O verbo "perturbar" sugere ser agitado num vento tempestuoso, e é usado metaforicamente para ficar tão perturbado a ponto de perder sua compostura e bom senso normais. É ficar transtornado pela notícia. O erro doutrinário sempre traz confusão em vez de edificação e consolo. Sempre que alguém tenta administrar essa agenda que pertence à economia da soberania de Deus cai em descrédito e colhe decepção. Somente Deus conhece esse dia.
Segundo, o equívoco de não observar os sinais da segunda vinda de Cristo (2Ts 2.3). Se por um lado não podemos marcar datas acerca do dia
 
da segunda vinda de Cristo, por outro, não podemos fechar os olhos aos seus sinais. O apóstolo pontua para a igreja que a segunda vinda de Cristo não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja manifestado o homem da iniquidade.
Dois sinais precederão a segunda vinda de Cristo. Vamos tratar dessa matéria à luz de 2Tessalonicenses 2.1-12. Que sinais são esses?
Apostasia (2Ts 2.3). A palavra grega apostasia significa queda, caída, rebelião, revolta. Trata-se de uma apostasia final que ocorrerá imediatamente antes da parousia. Essa apostasia será uma intensificação e culminação de uma rebelião que já começou, pois o mistério da iniquidade já opera no mundo. O fato de que o Dia do Senhor será precedido pela apostasia também já fora claramente predito pelo Senhor no seu sermão profético (Mt 24.10-13).
O que é apostasia? Como podemos entendê-la? Concordo com a descrição de Howard Marshall:
Apostasia é uma palavra usada no grego secular para uma revolta política ou militar e era usada na Septuaginta para a rebeldia contra Deus (Js 22.22; 2Cr 22.19; 33.10; Jr 2.19). Em especial, referia-se ao desvio da Lei. Nos últimos dias, a oposição dos homens a Deus e também a imoralidade e a iniquidade aumentarão grandemente (Mt 24.12; 2Tm 3.1-9). Estas coisas estão associadas com um aumento de guerras entre as nações (Mt 13.7,8) e com a atividade de falsos profetas e mestres (Mc 13.22; lTm 4.1-3; 2Tm 4,3,4).6
William Hendriksen alerta para o fato de que a apostasia futura de modo algum ensina que os que são genuínos filhos de Deus "cairão da graça". Tal queda não existe (2.13,14). Significa, porém, que a fé dos pais — fé a qual os filhos aderem por algum tempo de uma maneira meramente formal - será afinal e completamente abandonada por muitos dos filhos. O mesmo escritor ainda diz: "O uso do termo apostasia aqui em 2 Tessalonicenses 2.3, sem um adjetivo adjunto, coloca era realce o fato de que, de uma maneira geral, a igreja visível abandonará a fé genuína".
O aparecimento do homem da iniquidade (2Ts 2.3). O movimento de apostasia chegará ao seu apogeu quando seu líder maior, o arquioponente de Deus, o homem da iniquidade, for revelado. Esse homem da iniquidade, também chamado de "o filho da perdição" e "o iníquo" é uma designação
 
paulina do anticristo. Assim como Jesus terá sua revelação, apocalipse, também o anticristo terá sua manifestação. Isto enfatiza o caráter "sobre-humano" da pessoa mencionada, pois a coloca como contraparte da revelação do próprio Senhor Jesus Cristo."
O texto que estamos considerando foca sua atenção na pessoa, na atividade e na derrota do anticristo. William Barclay entende que estamos diante de uma das passagens mais difíceis de todo o Novo Testamento. Vamos, agora, examinar mais detidamente esse tema.
A identidade do anticristo revelada
A palavra anticristo significa um cristo substituto ou um cristo rival.11 O prefixo grego anti pode significar duas coisas: "contrário a" e "no lugar de". António Hoekema diz, portanto, que a palavra "anticristo" significa um cristo substituto ou um cristo rival. Assim, o anticristo é ao mesmo tempo um cristo rival e um adversário de Cristo.12 Satanás não apenas se opõe a Cristo, mas também deseja ser adorado e obedecido no lugar de Cristo. Satanás sempre desejou ser adorado e servido como Deus (Is 14.14; Lc 4.5-8). Um dia produzirá sua obra-prima, o anticristo, que levará o mundo a adorá-lo e acreditar em suas mentiras.
No livro de Daniel, o anticristo é representado inicialmente não como uma pessoa, mas como quatro reinos (leão, urso, leopardo e outro animal terrível), numa descrição clara dos impérios da Babilônia, Medo-Persa, Grego e Romano (Dn 7.1-6,17,18). Outro símbolo do anticristo no livro de Daniel é Antíoco Epifânio, que profanou o templo, quando o consagrou ao deus grego Zeus e mais tarde sacrificou porcos em seu altar (Dn 7.21,25).
No ensino de Jesus, o anticristo é visto como o imperador romano Tito que, no ano 70 d.C, destruiu a cidade de Jerusalém e o templo (Mt 24.15-20), bem como um personagem escatológico (Mt 24.21,22). A profecia bíblica vai se cumprindo historicamente e avança para a sua consumação (Mt 24.15-28).
Nas cartas de João, o termo anticristo é usado em um sentido impessoal (I Jo 4.2,3). Ele se referiu também ao anticristo de forma pessoal. Mas João vê o anticristo como uma pessoa que já está presente, ou seja, como alguém que representa um grupo de pessoas. Assim, o anticristo é um termo utilizado para descobrir uma quantidade de gente que sustenta uma heresia fatal (1 Jo 2.22; 2Jo 7).
João fala ainda tanto do anticristo que virá como do anticristo que já está presente. Assim, João esperava um anticristo que viria no tempo do fim. Os anticristos são precursores do anticristo (l Jo 2.28). Para João, o anticristo sempre esteve presente nos seus precursores, mas ele se levantará no tempo do fim como expressão máxima da oposição a Cristo e sua igreja.
Na teologia do apóstolo Paulo, o anticristo é visto como o homem do pecado (2.3). Ele surgirá da grande apostasia (2.3); será uma pessoa (2.3), será objeto de adoração (2.4), usará falsos milagres (2.9), só pode ser revelado depois que aquilo e aquele que o detém for removido (2.6,7) e será total-mente derrotado por Cristo (2.8).
O caráter do anticristo descrito
Paulo não usa o termo anticristo nesta carta. Essa designação é usada no Novo Testamento apenas por João (l Jo 2.18,22; 4.3; 2       Jo 7). Mas esse é o nome pelo qual identificamos o último gran¬de ditador mundial que Paulo chama de "homem da iniquidade", "filho da perdição" (2.3), aquele que "se opõe a Deus" (2.4), aquele "que se exalta acima de todos os demais" (2.4), "que se proclama Deus" (2.4), também chamado de "iníquo" (2.8).
Vamos examinar três aspectos do caráter do anticristo.
Em primeiro lugar, ele é o homem da iniquidade (2.3). Vale pontuar que o anticristo escatológico não é um sistema nem um grupo, mas um homem. Toda a descrição apresentada por Paulo é de caráter pessoal. O homem da iniquidade "se opõe", "se exalta", "se assenta no templo de Deus", "proclama a si mesmo como Deus", e será "morto". À luz de 2 Tessalonicenses 2.3,4,8 e 9, podemos afirmar com sólida convicção que Paulo está fazendo uma predição exata acerca de uma pessoa certa e específica que se manifestará e que receberá sua condenação quando Cristo voltar.
Alguns eminentes teólogos, como Benjamim Warfield, defenderam a tese de que o homem da iniquidade deveria ser identificado como a linhagem de imperadores romanos, como Calígula, Nero, Vespasiano, Tito e Domiciano. John Wyclif, Martinho Lutero e muitos outros líderes da Reforma defenderam a tese de que o papa era o anticristo. A Confissão de Fé de Westminster é categórica nesse ponto:
Não há outro Cabeça da igreja senão o Senhor Jesus Cristo. Em sentido algum pode ser o papa de Roma o cabeça dela, senão que ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho da perdição que se exaltava na igreja contra Cristo e contra tudo o que chama Deus (XXV.vi).
William Hendriksen, destacado escritor reformado, entretanto, discorda dessa interpretação, dizendo que o papa pode ser chamado "um anticristo", um entre muitos dos precursores do anticristo final. Em tal pessoa o mistério da iniquidade já está em operação. Chamar, porém, o papa de o anticristo é algo que contraria toda a sã exegese.
O anticristo é o homem sem lei que viverá e agirá na absoluta ilegalidade. Ele será um transgressor consumado da lei de Deus e dos homens. Será um monstro absolutista. A palavra grega anomia, iniquidade, descreve a condição de quem vive de modo contrário à lei. Ele é a própria personificação da rebelião contra as ordenanças de Deus. O homem da iniquidade realizará os sonhos de Satanás sobre a terra, liderando a mais ampla e a mais profunda rebelião contra Deus em toda a História.
William Hendriksen coloca esse fato com clareza:
E importante observar que assim como a apostasia não será meramente passiva, mas ativa (não meramente uma negação de Deus, mas também uma rebelião contra Deus e seu Cristo), assim também o homem da iniquidade será um transgressor ativo e agressivo. Ele não leva o título de "homem sem lei" por jamais ter ouvido a lei de Deus, e, sim, porque publicamente a despreza!
Em segundo lugar, ele é o filho da perdição (2.3). Não apenas seu caráter é sumamente corrompido, mas seu destino é claramente definido. Ele procede do maligno e se destina inexoravelmente à perdição. Ele é um ser completamente perdido e designado para a perdição. Ele será lançado no lago de fogo (Ap 19.20; 20.10). A palavra grega apoleia, "perdição" traz a ideia de que o anticristo está destinado a ser destruído.
Em terceiro lugar, ele é o iníquo (2.8). A palavra grega anomos, traduzida por "iníquo" significa ilegal, iníquo, aquele que vive ao arrepio da lei. O anticristo será um homem corrompido em grau superlativo. Ele será inspirado pelo poder de Satanás e terá um caráter tão perverso quanto o daquele que o inspira.
Podemos afirmar, acompanhado por uma nuvem de testemunhas, que o conceito de Paulo sobre o anticristo procede da profecia de Daniel. Observemos os seguintes pontos: 1) o homem da iniquidade (2.3 - Dn 7.25; 8.25); 2) o filho da perdição (2.3 - Dn 8.26); 3) aquele que se opõe (2.4 - Dn 7.25); 4) e que se exalta contra tudo [que é] chamado Deus ou é adorado (2.4 - Dn 7.8,20,25; 8.4,10,11); 5) de modo que se assenta no santuário de Deus, proclamando a si mesmo como Deus (2.4 -Dn 8.9-14).
A oposição do anticristo e sua adoração definidas
Dois fatos precisam ser aqui destacados:
Em primeiro lugar, o anticristo se oporá a Deus abertamente e perseguirá implacavelmente a igreja (2.4). O apóstolo Paulo diz que o anticristo "[...] se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus [...] ostentando-se como se fosse o próprio Deus" (2.4). O homem do pecado é o adversário de Deus, da lei de Deus, e do povo de Deus.
A palavra grega antikeimenos, traduzida por "opor-se", indica uma oposição constante e habitual ou como um estilo de vida enquanto a palavra grega hiperairomenos, traduzida por "se levanta", significa exaltar-se sobremaneira ou exaltar-se fora de proporções. O anticristo será uma espécie de encarnação do mal. Esse mal humanizado será a antítese de Deus, diz William Barclay.
O anticristo será um opositor consumado de Deus e da igreja (Dn 7.25; 11.36; l Jo 2.22; Ap 13.6). Ele será uma pessoa totalmente maligna em seu ser e em suas atitudes. Ele não apenas se oporá, mas também se levantará contra tudo o que se chama Deus ou objeto de culto.
O profeta Daniel diz que ele "Proferirá palavras contra o Altíssimo" (Dn 7.25) e "[...] contra o Deus dos deuses falará coisas incríveis" (Dn 11.36). O apóstolo João declara: "E abriu a boca em blasfêmias contra Deus, para lhe difamar o nome" (Ap 13.6). Diz ainda: "Este é o anticristo, o que nega o Pai e o Filho" (l Jo 2.22).
O anticristo não apenas se oporá a Deus, mas também perseguirá implacavelmente a igreja (Dn 7.25; 7.21; Ap 12.11; 13.7). O profeta Daniel diz que ele "[...] magoará os santos do Altíssimo" (Dn 7.25) e "fará guerra contra os santos e prevalecerá contra eles (Dn 7.21). O apóstolo João registra que lhe foi dado também que pelejasse contra os santos e os vencesse (Ap 13.7). O anticristo perseguirá de forma cruel àqueles que se recusarem a adorá-lo (Ap 13.7,15). Esse será um tempo de grande angústia (Jr 30.7; Dn 12.1; Mt 24.21,22). A igreja de Cristo nesse tempo será uma igreja mártir (Ap 13.7,10). Mas os crentes fiéis vão vencer o diabo e o anticristo, preferindo morrer a apostatar (Ap 12.11).
Em segundo lugar, o anticristo será objeto de adoração em toda a terra (2.4). Ele se assentará no santuário de Deus e vai reivindicar ser adorado como Deus. A adoração ao anticristo é o mesmo que adoração a Satanás (Ap 13.4). Adoração é um tema central no livro de Apocalipse: a noiva está adorando o Cordeiro, e a igreja apóstata está adorando o dragão e o anticristo. O mundo está ensaiando essa adoração aberta ao anticristo e a Satanás.
O satanismo e o ocultismo estão em alta. As seitas esotéricas crescem23 e se espalham como um rastilho de pólvora. A Nova Era proclama a chegada de um novo tempo, em que o homem vai curvar-se diante do "Maitrea", o grande líder mundial. A adoração a ídolos é uma espécie de adoração de demônios (I Co 10.19,20). A necromancia de igual forma é, também, uma adoração de demônios. O grande e último plano do anticristo é levar seus súditos a adorarem a Satanás (Ap 13.3,4). Esse será o período da grande apostasia. Nesse tempo os homens não suportarão a verdade de Deus e obedecerão a ensinos de demônios (l Tm 4.1). O humanismo idolátrico, o endeusamento do homem e sua consequente veneração é uma prática satânica. Adoração ao homem e adoração a Satanás são a mesma coisa.
A adoração ao anticristo será universal (Ap 13.8,16). Diz o apóstolo João que o adorarão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro (Ap 13.8). Satanás vai tentar imitar Deus também nesse aspecto. Ao saber que Deus tem os seus selados, ele também selará os seus com a marca da besta (Ap 13.8,16-18). Todas as classes sociais se acotovelarão para entrar nessa igreja apóstata e receber a marca da besta (Ap 13.16).
O cenário para o aparecimento do anticristo está preparado
Se o anticristo escatológico ainda não foi revelado, o mistério da iniquidade que prepara o cenário para a sua chegada já está operando. A palavra grega misterion traduzida por "mistério" aponta para o que era desconhecido e impossível de ser descoberto pelo homem, exceto por intermédio de uma revelação de Deus. O espírito da nossa época está em aberta oposição a Deus. Vivemos esse tempo de apostasia e rebelião contra Deus. Os valores morais estão sendo tripudiados. Não se respeita mais nada: a começar pelos sinais de trânsito. A Justiça e a polícia estão impotentes para conter tanto desrespeito. O homem não tem medo de mais nada. Os princípios de Deus estão sendo escarnecidos. Os homens estão indo de mal a pior, rechaçando a verdade e trocando-a pela mentira. O que Deus abomina está sendo aplaudido e o que Deus aprova está sendo pisado como lama nas ruas.
O palco está pronto para a chegada desse líder maligno. É bem conhecido o que disse o historiador Arnold Toynbee: "O mundo está pronto para endeusar qualquer novo césar que consiga dar à sociedade caótica unidade e paz". O anticristo surgirá num tempo de profunda desatenção à voz do juízo de Deus (Mt 24.37-39). Esse tempo será como nos dias de Noé.
A manifestação do anticristo impedida
O anticristo escatológico ainda não se manifestou porque sua aparição está sendo impedida por ALGO (2.6) e por ALGUÉM (2.7). O apóstolo Paulo diz: "E, agora, sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião própria. Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém" (2.6,7, grifos do autor). Convém observar que, em 2 Tessalonicenses 2.6, Paulo se refere ao repressor de modo neutro ("o que o detém"), enquanto em 2 Tessalonicenses 2.7, usa o gênero masculino ("aquele que agora o detém").
A palavra grega kairós, traduzida por "ocasião oportuna", nos revela que o anticristo só aparecerá no momento certo, ou seja, no momento determinado por Deus. Warren Wiersbe diz que assim como houve uma "plenitude do tempo" para a vinda de Cristo (Gl 4.4), também haverá uma "plenitude do tempo" para o surgimento do anticristo, e nada acontecerá fora do cronograma divino.
O que é esse ALGO? Quem é esse ALGUÉM? Agostinho de Hipona era da opinião que é impossível definir es¬ses elementos restringidores. Outros escritores, entretanto, pensam que Paulo está se referindo aqui ao Espírito Santo, uma vez que ele pode ser descrito tanto no gênero masculino como no neutro (Jo 14.16,17; 16.13) e também ele é apontado como aquele que restringia as forças do mal no Antigo Testamento (Gn 6.3).
Howard Marshall, por sua vez, é da opinião que Deus é quem está por trás da ação adiadora da manifestação do homem da iniquidade. A maioria dos estudiosos, entretanto, entende que o ALGO é a lei e que o ALGUÉM é aquele que faz a lei se cumprir. É por isso que o anticristo vai surgir no período da grande apostasia, ou seja, da grande rebelião, quando os homens não suportarão leis, normas nem absolutos. Então, eles facilmente se entregarão ao homem da ilegalidade, o filho da perdição. 29 Enquanto a lei e a ordem prevalecerem, o homem da iniquidade está impossibilitado de aparecer no cenário da História com seu programa de injustiça, blasfêmia e perseguição sem precedentes. O apóstolo via no governo e seus administradores um freio para o mal. Entretanto, quando a estrutura básica da justiça desaparece, e quando os juízos falsos e as confissões fraudulentas se trans-formam na ordem do dia, então o cenário se acha preparado para a revelação do homem da iniquidade.
O poder do anticristo identificado
O anticristo virá no poder de Satanás. Ele fará coisas espetaculares e milagres estupendos pela energia de Satanás. Ele não será um homem comum nem terá um poder comum. O anticristo se manifestará com um grande milagre (Ap 13.3). Ele vai distinguir-se como uma pessoa sobrenatural, por um ato que será um simulacro da ressurreição. Esse fato é tão importante que o apóstolo João o registra três vezes (Ap 13.3,12,14). Certamente não será uma genuína ressurreição dentre os mortos, mas será o simulacro da ressurreição, produzido por Satanás. O propósito dessa misteriosa transação é conceder a Satanás um corpo. Satanás governará em pessoa. O anticristo será uma espécie de encarnação de Satanás.
O anticristo vai realizar grandes milagres. Diz o apóstolo Paulo: "Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira" (2.9,10). A palavra grega energeia, traduzida por "eficácia", é empregada com frequência para a operação sobrenatural.
Atualmente, vivemos numa sociedade ávida por milagres. As pessoas andam atrás de sinais e serão facilmente enganadas pelo anticristo. Ele vai ditar e disseminar falsos ensinos (2.11). Nesse tempo, os homens não suportarão a sã doutrina (l Tm 4.1). As seitas heréticas, o misticismo e o sincretismo de muitas igrejas pavimentam o caminho para a chegada do anticristo.
Satanás dará poder a seu falso messias para que ele realize "[...] sinais, e prodígios da mentira" (2.9). Trata-se, sem dúvida, de uma imitação de Cristo, que realizou "[...] milagres, prodígios e sinais" (At 2.22). Warren Wiersbe descreve essa incansável tentativa de Satanás imitar a Deus, como segue:
Satanás sempre foi um imitador. Existem falsos cristãos no mundo que, na verdade, são filhos do diabo (Mt 13.38; 2Co 11.26). Ele tem falsos ministros (2 Co 11.13) que pregam um falso evangelho (Gl 1.6-9). Existe até mesmo uma "sinagoga de Satanás" (Ap 2.9), ou seja, um grupo de pessoas que pensa estar adorando a Deus, mas, na verdade, adora ao diabo (I Co 10.19-21). Esses cristãos falsos possuem uma justiça falsa que não é a justiça salvadora de Cristo (Rm 10.1-3; Fp 3.4-10). Eles têm uma certeza falsa que se mostrará inútil quando enfrentarem o julgamento (7.15-29).
O propósito dos milagres de Deus é conduzir as pessoas à verdade; o propósito dos milagres do anticristo será o de levar as pessoas a crer nas mentiras. Paulo os chama de "prodígios da mentira" (2.9), não porque os milagres não sejam reais, mas porque convencem as pessoas a crer nas mentiras de Satanás.
O anticristo vai governar na força de Satanás. "Deu-lhe o dragão o seu poder, o seu trono e grande autoridade" (Ap 13.2). Na verdade, quem vai mandar é Satanás. Os governos subjugados por ele vão estar sujeitos a Satanás. Esse vai ser o período da história denominado por João o "pouco tempo" de Satanás (Ap 20.3). Esse será o tempo da grande tribulação. O governo do anticristo vai ser universal, pois Satanás é o príncipe deste mundo. O mundo inteiro jaz no maligno (l Jo 5.19). Aquele reino que Satanás ofereceu a Cristo, o anticristo o aceitará. Ele vai dominar sobre as nações: "Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação" (Ap 13.7). O governo universal do anticristo será extremamente cruel e controlador (Ap 13.16,17). O seu poder parecerá irresistível (Ap 13.4).
Os seguidores do anticristo apontados
Os seguidores do anticristo podem ser descritos de cinco maneiras bem distintas:
Em primeiro lugar, eles não acolhem o amor da verdade (2.10). A verdade de Deus não lhes interessa nem lhes apetece. Eles têm repúdio e aversão pela verdade. Veem-na como algo desprezível. Esse será o tempo da apostasia, a grande rebelião.
Em segundo lugar, eles não dão crédito à verdade (2.12). Eles serão julgados não pelo pecado da ignorância, mas pelo pecado da rejeição consciente da verdade. Eles desprezam a verdade, não porque a desconhecem, mas porque a abominam e a transformam em mentira e dão crédito à mentira enquanto repudiam a verdade (2.11).
Em terceiro lugar, eles se deleitam na injustiça (2.12). A razão e a emoção caminham juntas. Eles rejeitam a verdade e por isso se deleitam na injustiça. A impiedade desagua na perversão (Rm 1.18). A apostasia desemboca na corrupção moral. A teologia errada desemboca em vida errada. O prazer do ímpio está naquilo que Deus abomina. Ele se deleita naquilo que provoca náuseas em Deus. Jesus deixa esse ponto claro, quando diz: "O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más" (Jo 3.19).
Em quarto lugar, eles são entregues por Deus à operação do erro (2.11). Deus sentencia os seguidores do anticristo, dando a eles o que sempre buscaram. Eles não acolheram o amor da verdade nem deram crédito a ela. Então, como julgamento, Deus lhes entrega à operação do erro para darem crédito ao que amam, à mentira. A culpa da condenação do homem é só do homem. Quando o homem se perde, é sempre pela própria culpa, nunca de Deus, diz William Hendriksen. Nessa mesma linha de pensamento, Howard Marshall diz que aqueles que se recusam a crer e a aceitar a verdade descobrem que o julgamento lhes sobrevêm na forma de incapacidade de aceitar a verdade. O que o versículo ressalta é que esta é uma ação deliberada de Deus. Quando as pessoas espontânea e reiteradamente recusam tanto as promessas quanto as ameaças divinas, rejeitando tanto a Deus quanto suas mensagens, Deus mesmo as endurece a fim de que fiquem incapacitadas para o arrependimento e aptas para crerem na mentira do anticristo. William Hendriksen ilustra este fato assim:
Quando Faraó endurecia seu coração (Ex 7.14; 8.15,32; 9.7), Deus endurecia o coração de Faraó (Ex 9.12). Quando o rei de Israel odiava os genuínos profetas de Deus, então o Senhor lhe permitia ser enganado, colocando um espírito mentiroso nos lábios de outros profetas (2Cr 18.22). Quando os homens praticam a impureza, Deus os entrega às luxúrias de seus corações para a impureza (Rm 1.24,26). E quando obstinadamente recusam reconhecer a Deus, ele finalmente os entrega a um estado mental corrompido e a uma conduta imunda (Rm 1.28).
Em quinto lugar, eles são julgados e condenados (2.10,12). Os seguidores do anticristo serão julgados (2.12) e condenados à perdição. Eles perecem (2.10). O destino daqueles que rejeitam a Cristo e engrossam as fileiras do anticristo será o mesmo do dragão e do anticristo, o lago de fogo (Ap 20.10,15). Quem não anda no Caminho da vida, que é Cristo, caminha numa estrada de morte!
A derrota do anticristo consumada
O anticristo não será derrotado por nenhuma força da terra. Ele parecerá um inimigo invencível (Ap 13.4). Porém, quando Cristo vier na sua glória o matará com o sopro da sua boca e com a manifestação da sua vinda (2.8). Os verbos "matar" e "destruir" não significam aniquilar, pois Apocalipse 20.10 indica que Satanás e seus ajudantes serão atormentados no lago de fogo para sempre. O anticristo será quebrado sem esforço de mãos humanas (Dn 8.25). Jesus vai tirar o domínio do anticristo para destruí-lo e o consumir até o fim (Dn 7,26). Cristo colocará todos os seus inimigos debaixo dos seus pés (I Co 15.24,25). C) anticristo será lançado no lago do fogo que arde com enxofre (Ap 19.20). O anticristo será atormentado pelos séculos dos séculos (Ap 20.10).
A igreja selada por Deus (Ap 9.4) preferirá a morte à apostasia e assim vencerá o dragão e o anticristo (Ap 12.11). Aqueles cujos nomes estão no Livro da Vida não adorarão o anticristo (Ap 13.8) nem serão condenados com ele, mas reinarão com Cristo para sempre.
William Barclay, conclui a análise do texto em tela, sugerindo três aplicações práticas oportunas:
Há uma força do mal no mundo. O mistério da iniquidade já opera no mundo preparando o cenário para o aparecimento do homem da iniquidade. Muitos caminham despercebidos sem atentar para os perigos. Quando o gigantesco e seguro Titanic chocou-se em um iceberg no começo do século passado, houve uma grande perda de vidas. Antes do acidente, havia um arrogante senso de segurança na inexpugnabilidade do navio.
Na estreia do grande transatlântico, quando mais de mil pessoas faziam a viagem dos sonhos para Nova York, não houve quase nenhuma instrução sobre a maneira de evacuar o navio em caso de acidente. Quase todo o tempo foi usado para falar sobre os deleites que o navio oferecia. Quando o navio começou a afundar, o pânico encheu o coração dos passageiros. Então é que foram perceber que não havia botes salva-vidas para todos. Por conseguinte, centenas de pessoas foram engolidas pelas águas geladas do Atlântico Norte.
Há muitos que navegam em águas perigosas ainda hoje. Poucos estão preparados para o dia do julgamento. Enquanto o mundo afunda no abismo do pecado, a igreja é desafiada a alcançar os povos da terra para Cristo, oferecendo-lhes um seguro salva-vidas.
Deus tem o controle. O iníquo, o filho da perdição, só aparecerá no tempo que Deus determinar e terá seu poder limitado, seu tempo limitado e sua derrocada lavrada. Até mesmo o mal mais hediondo está sob o controle de Deus.
O triunfo final de Deus é seguro. Ninguém poderá opor-se a Deus e prevalecer. O iníquo fará proezas e enganará a muitos, mas chegará o momento em que Deus dirá: "Basta". Então, ele será lançado no lago de fogo e será atormentado pelos séculos dos séculos 

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