A igreja de Tessalônica
cometeu dois sérios equívocos acerca da doutrina da segunda vinda de Cristo.
Ambos perigosos, ambos injustificados e de consequências desastrosas. Quais
foram esses equívocos? Examinaremos esse importante assunto à luz de 2 Tessalonicenses
2.1-12.
Primeiro,
o equívoco de marcar datas quanto à
segunda vinda de Cristo (2 Ts 2.1,2). Alguns crentes de Tessalônica estavam
sendo enredados pelo engano, pensando que a vinda de Cristo já acontecera. Eles
fixaram uma data e na mente deles essa data já havia chegado.
Paulo
já havia ensinado a igreja sobre a segunda vinda (I Ts 2.19) e a necessidade de
estar preparado para ela (I Ts 5.1-11), mas eles confundiram a vinda súbita com
uma vinda imediata. O problema dos tessalonicenses não era a questão da demora
da parousia, mas, sim, sua crença de que estava esmagadoramente iminente.
Após
a leitura da primeira carta de Paulo à igreja, é bem provável que alguns
intérpretes fantasiosos tivessem chegado a essa equivocada interpretação e
perturbado a igreja com suas conclusões. O verbo "perturbar" sugere
ser agitado num vento tempestuoso, e é usado metaforicamente para ficar tão
perturbado a ponto de perder sua compostura e bom senso normais. É ficar
transtornado pela notícia. O erro doutrinário sempre traz confusão em vez de
edificação e consolo. Sempre que alguém tenta administrar essa agenda que pertence
à economia da soberania de Deus cai em descrédito e colhe decepção. Somente
Deus conhece esse dia.
Segundo, o equívoco de não observar os sinais da
segunda vinda de Cristo (2Ts 2.3). Se por um lado não podemos marcar datas
acerca do dia
da
segunda vinda de Cristo, por outro, não podemos fechar os olhos aos seus
sinais. O apóstolo pontua para a igreja que a segunda vinda de Cristo não
acontecerá sem que primeiro venha a apostasia e seja manifestado o homem da
iniquidade.
Dois
sinais precederão a segunda vinda de Cristo. Vamos tratar dessa matéria à luz
de 2Tessalonicenses 2.1-12. Que sinais são esses?
Apostasia
(2Ts 2.3). A palavra grega apostasia significa queda, caída, rebelião, revolta.
Trata-se de uma apostasia final que ocorrerá imediatamente antes da parousia.
Essa apostasia será uma intensificação e culminação de uma rebelião que já
começou, pois o mistério da iniquidade já opera no mundo. O fato de que o Dia
do Senhor será precedido pela apostasia também já fora claramente predito pelo
Senhor no seu sermão profético (Mt 24.10-13).
O
que é apostasia? Como podemos entendê-la? Concordo com a descrição de Howard
Marshall:
Apostasia é uma palavra
usada no grego secular para uma revolta política ou militar e era usada na
Septuaginta para a rebeldia contra Deus (Js 22.22; 2Cr 22.19; 33.10; Jr 2.19).
Em especial, referia-se ao desvio da Lei. Nos últimos dias, a oposição dos
homens a Deus e também a imoralidade e a iniquidade aumentarão grandemente (Mt
24.12; 2Tm 3.1-9). Estas coisas estão associadas com um aumento de guerras
entre as nações (Mt 13.7,8) e com a atividade de falsos profetas e mestres (Mc
13.22; lTm 4.1-3; 2Tm 4,3,4).6
William
Hendriksen alerta para o fato de que a apostasia futura de modo algum ensina
que os que são genuínos filhos de Deus "cairão da graça". Tal queda
não existe (2.13,14). Significa, porém, que a fé dos pais — fé a qual os filhos
aderem por algum tempo de uma maneira meramente formal - será afinal e
completamente abandonada por muitos dos filhos. O mesmo escritor ainda diz:
"O uso do termo apostasia aqui em 2 Tessalonicenses 2.3, sem um adjetivo
adjunto, coloca era realce o fato de que, de uma maneira geral, a igreja visível
abandonará a fé genuína".
O aparecimento do homem da iniquidade (2Ts 2.3). O movimento
de apostasia chegará ao seu apogeu quando seu líder maior, o arquioponente de
Deus, o homem da iniquidade, for revelado. Esse homem da iniquidade, também
chamado de "o filho da perdição" e "o iníquo" é uma
designação
paulina
do anticristo. Assim como Jesus terá sua revelação, apocalipse, também o anticristo terá sua manifestação. Isto
enfatiza o caráter "sobre-humano" da pessoa mencionada, pois a coloca
como contraparte da revelação do próprio Senhor Jesus Cristo."
O
texto que estamos considerando foca sua atenção na pessoa, na atividade e na
derrota do anticristo. William Barclay entende que estamos diante de uma das
passagens mais difíceis de todo o Novo Testamento. Vamos, agora, examinar mais
detidamente esse tema.
A identidade do
anticristo revelada
A
palavra anticristo significa um
cristo substituto ou um cristo rival.11 O prefixo grego anti pode significar duas coisas: "contrário a" e
"no lugar de". António Hoekema diz, portanto, que a palavra
"anticristo" significa um cristo substituto ou um cristo rival.
Assim, o anticristo é ao mesmo tempo um cristo rival e um adversário de
Cristo.12 Satanás não apenas se opõe a Cristo, mas também deseja ser adorado e
obedecido no lugar de Cristo. Satanás sempre desejou ser adorado e servido como
Deus (Is 14.14; Lc 4.5-8). Um dia produzirá sua obra-prima, o anticristo, que
levará o mundo a adorá-lo e acreditar em suas mentiras.
No
livro de Daniel, o anticristo é representado inicialmente não como uma pessoa,
mas como quatro reinos (leão, urso, leopardo e outro animal terrível), numa
descrição clara dos impérios da Babilônia, Medo-Persa, Grego e Romano (Dn
7.1-6,17,18). Outro símbolo do anticristo no livro de Daniel é Antíoco Epifânio,
que profanou o templo, quando o consagrou ao deus grego Zeus e mais tarde
sacrificou porcos em seu altar (Dn 7.21,25).
No
ensino de Jesus, o anticristo é visto como o imperador romano Tito que, no ano
70 d.C, destruiu a cidade de Jerusalém e o templo (Mt 24.15-20), bem como um
personagem escatológico (Mt 24.21,22). A profecia bíblica vai se cumprindo
historicamente e avança para a sua consumação (Mt 24.15-28).
Nas
cartas de João, o termo anticristo é
usado em um sentido impessoal (I Jo 4.2,3). Ele se referiu também ao anticristo
de forma pessoal. Mas João vê o anticristo como uma pessoa que já está
presente, ou seja, como alguém que representa um grupo de pessoas. Assim, o
anticristo é um termo utilizado para descobrir uma quantidade de gente que sustenta
uma heresia fatal (1 Jo 2.22; 2Jo 7).
João
fala ainda tanto do anticristo que virá como do anticristo que já está
presente. Assim, João esperava um anticristo que viria no tempo do fim. Os
anticristos são precursores do anticristo (l Jo 2.28). Para João, o anticristo
sempre esteve presente nos seus precursores, mas ele se levantará no tempo do
fim como expressão máxima da oposição a Cristo e sua igreja.
Na
teologia do apóstolo Paulo, o anticristo é visto como o homem do pecado (2.3).
Ele surgirá da grande apostasia (2.3); será uma pessoa (2.3), será objeto de
adoração (2.4), usará falsos milagres (2.9), só pode ser revelado depois que
aquilo e aquele que o detém for removido (2.6,7) e será total-mente derrotado
por Cristo (2.8).
O caráter do anticristo
descrito
Paulo
não usa o termo anticristo nesta
carta. Essa designação é usada no Novo Testamento apenas por João (l Jo
2.18,22; 4.3; 2 Jo 7). Mas esse é o
nome pelo qual identificamos o último gran¬de ditador mundial que Paulo chama
de "homem da iniquidade", "filho da perdição" (2.3), aquele
que "se opõe a Deus" (2.4), aquele "que se exalta acima de todos
os demais" (2.4), "que se proclama Deus" (2.4), também chamado
de "iníquo" (2.8).
Vamos
examinar três aspectos do caráter do anticristo.
Em
primeiro lugar, ele é o homem da
iniquidade (2.3). Vale pontuar que o anticristo escatológico não é um
sistema nem um grupo, mas um homem. Toda a descrição apresentada por Paulo é de
caráter pessoal. O homem da iniquidade "se opõe", "se
exalta", "se assenta no templo de Deus", "proclama a si mesmo
como Deus", e será "morto". À luz de 2 Tessalonicenses 2.3,4,8 e
9, podemos afirmar com sólida convicção que Paulo está fazendo uma predição
exata acerca de uma pessoa certa e específica que se manifestará e que receberá
sua condenação quando Cristo voltar.
Alguns
eminentes teólogos, como Benjamim Warfield, defenderam a tese de que o homem da
iniquidade deveria ser identificado como a linhagem de imperadores romanos,
como Calígula, Nero, Vespasiano, Tito e Domiciano. John Wyclif, Martinho Lutero
e muitos outros líderes da Reforma defenderam a tese de que o papa era o
anticristo. A Confissão de Fé de Westminster é categórica nesse ponto:
Não há outro Cabeça da
igreja senão o Senhor Jesus Cristo. Em sentido algum pode ser o papa de Roma o
cabeça dela, senão que ele é aquele anticristo, aquele homem do pecado e filho
da perdição que se exaltava na igreja contra Cristo e contra tudo o que chama
Deus (XXV.vi).
William
Hendriksen, destacado escritor reformado, entretanto, discorda dessa
interpretação, dizendo que o papa pode ser chamado "um anticristo",
um entre muitos dos precursores do anticristo final. Em tal pessoa o mistério
da iniquidade já está em operação. Chamar, porém, o papa de o anticristo é algo
que contraria toda a sã exegese.
O
anticristo é o homem sem lei que viverá e agirá na absoluta ilegalidade. Ele
será um transgressor consumado da lei de Deus e dos homens. Será um monstro
absolutista. A palavra grega anomia, iniquidade, descreve a condição de quem
vive de modo contrário à lei. Ele é a própria personificação da rebelião contra
as ordenanças de Deus. O homem da iniquidade realizará os sonhos de Satanás
sobre a terra, liderando a mais ampla e a mais profunda rebelião contra Deus em
toda a História.
William
Hendriksen coloca esse fato com clareza:
E importante observar
que assim como a apostasia não será meramente passiva, mas ativa (não meramente
uma negação de Deus, mas também uma rebelião contra Deus e seu Cristo), assim
também o homem da iniquidade será um transgressor ativo e agressivo. Ele não
leva o título de "homem sem lei" por jamais ter ouvido a lei de Deus,
e, sim, porque publicamente a despreza!
Em
segundo lugar, ele é o filho da perdição (2.3).
Não apenas seu caráter é sumamente corrompido, mas seu destino é claramente
definido. Ele procede do maligno e se destina inexoravelmente à perdição. Ele é
um ser completamente perdido e designado para a perdição. Ele será lançado no
lago de fogo (Ap 19.20; 20.10). A palavra grega apoleia, "perdição" traz a ideia de que o anticristo está
destinado a ser destruído.
Em
terceiro lugar, ele é o iníquo (2.8).
A palavra grega anomos, traduzida por
"iníquo" significa ilegal, iníquo, aquele que vive ao arrepio da lei.
O anticristo será um homem corrompido em grau superlativo. Ele será inspirado
pelo poder de Satanás e terá um caráter tão perverso quanto o daquele que o
inspira.
Podemos
afirmar, acompanhado por uma nuvem de testemunhas, que o conceito de Paulo
sobre o anticristo procede da profecia de Daniel. Observemos os seguintes
pontos: 1) o homem da iniquidade (2.3 - Dn 7.25; 8.25); 2) o filho da perdição
(2.3 - Dn 8.26); 3) aquele que se opõe (2.4 - Dn 7.25); 4) e que se exalta
contra tudo [que é] chamado Deus ou é adorado (2.4 - Dn 7.8,20,25; 8.4,10,11);
5) de modo que se assenta no santuário de Deus, proclamando a si mesmo como
Deus (2.4 -Dn 8.9-14).
A oposição do
anticristo e sua adoração definidas
Dois fatos precisam ser
aqui destacados:
Em
primeiro lugar, o anticristo se oporá a
Deus abertamente e perseguirá implacavelmente a igreja (2.4). O apóstolo
Paulo diz que o anticristo "[...] se opõe e se levanta contra tudo que se
chama Deus [...] ostentando-se como se fosse o próprio Deus" (2.4). O
homem do pecado é o adversário de Deus, da lei de Deus, e do povo de Deus.
A
palavra grega antikeimenos, traduzida
por "opor-se", indica uma oposição constante e habitual ou como um
estilo de vida enquanto a palavra grega
hiperairomenos, traduzida por "se levanta", significa exaltar-se
sobremaneira ou exaltar-se fora de proporções. O anticristo será uma espécie de
encarnação do mal. Esse mal humanizado será a antítese de Deus, diz William
Barclay.
O
anticristo será um opositor consumado de Deus e da igreja (Dn 7.25; 11.36; l Jo
2.22; Ap 13.6). Ele será uma pessoa totalmente maligna em seu ser e em suas
atitudes. Ele não apenas se oporá, mas também se levantará contra tudo o que se
chama Deus ou objeto de culto.
O
profeta Daniel diz que ele "Proferirá palavras contra o Altíssimo"
(Dn 7.25) e "[...] contra o Deus dos deuses falará coisas incríveis"
(Dn 11.36). O apóstolo João declara: "E abriu a boca em blasfêmias contra
Deus, para lhe difamar o nome" (Ap 13.6). Diz ainda: "Este é o
anticristo, o que nega o Pai e o Filho" (l Jo 2.22).
O
anticristo não apenas se oporá a Deus, mas também perseguirá implacavelmente a
igreja (Dn 7.25; 7.21; Ap 12.11; 13.7). O profeta Daniel diz que ele
"[...] magoará os santos do Altíssimo" (Dn 7.25) e "fará guerra
contra os santos e prevalecerá contra eles (Dn 7.21). O apóstolo João registra
que lhe foi dado também que pelejasse contra os santos e os vencesse (Ap 13.7).
O anticristo perseguirá de forma cruel àqueles que se recusarem a adorá-lo (Ap
13.7,15). Esse será um tempo de grande angústia (Jr 30.7; Dn 12.1; Mt
24.21,22). A igreja de Cristo nesse tempo será uma igreja mártir (Ap 13.7,10).
Mas os crentes fiéis vão vencer o diabo e o anticristo, preferindo morrer a
apostatar (Ap 12.11).
Em
segundo lugar, o anticristo será objeto
de adoração em toda a terra (2.4). Ele se assentará no santuário de Deus e
vai reivindicar ser adorado como Deus. A adoração ao anticristo é o mesmo que
adoração a Satanás (Ap 13.4). Adoração é um tema central no livro de
Apocalipse: a noiva está adorando o Cordeiro, e a igreja apóstata está adorando
o dragão e o anticristo. O mundo está ensaiando essa adoração aberta ao
anticristo e a Satanás.
O
satanismo e o ocultismo estão em alta. As seitas esotéricas crescem23 e se
espalham como um rastilho de pólvora. A Nova Era proclama a chegada de um novo
tempo, em que o homem vai curvar-se diante do "Maitrea", o grande
líder mundial. A adoração a ídolos é uma espécie de adoração de demônios (I Co
10.19,20). A necromancia de igual forma é, também, uma adoração de demônios. O
grande e último plano do anticristo é levar seus súditos a adorarem a Satanás
(Ap 13.3,4). Esse será o período da grande apostasia. Nesse tempo os homens não
suportarão a verdade de Deus e obedecerão a ensinos de demônios (l Tm 4.1). O
humanismo idolátrico, o endeusamento do homem e sua consequente veneração é uma
prática satânica. Adoração ao homem e adoração a Satanás são a mesma coisa.
A
adoração ao anticristo será universal (Ap 13.8,16). Diz o apóstolo João que o
adorarão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram
escritos no Livro da Vida do Cordeiro (Ap 13.8). Satanás vai tentar imitar Deus
também nesse aspecto. Ao saber que Deus tem os seus selados, ele também selará
os seus com a marca da besta (Ap 13.8,16-18). Todas as classes sociais se
acotovelarão para entrar nessa igreja apóstata e receber a marca da besta (Ap
13.16).
O cenário para o
aparecimento do anticristo está preparado
Se
o anticristo escatológico ainda não foi revelado, o mistério da iniquidade que
prepara o cenário para a sua chegada já está operando. A palavra grega misterion traduzida por
"mistério" aponta para o que era desconhecido e impossível de ser
descoberto pelo homem, exceto por intermédio de uma revelação de Deus. O
espírito da nossa época está em aberta oposição a Deus. Vivemos esse tempo de
apostasia e rebelião contra Deus. Os valores morais estão sendo tripudiados.
Não se respeita mais nada: a começar pelos sinais de trânsito. A Justiça e a
polícia estão impotentes para conter tanto desrespeito. O homem não tem medo de
mais nada. Os princípios de Deus estão sendo escarnecidos. Os homens estão indo
de mal a pior, rechaçando a verdade e trocando-a pela mentira. O que Deus
abomina está sendo aplaudido e o que Deus aprova está sendo pisado como lama
nas ruas.
O
palco está pronto para a chegada desse líder maligno. É bem conhecido o que
disse o historiador Arnold Toynbee: "O mundo está pronto para endeusar
qualquer novo césar que consiga dar à sociedade caótica unidade e paz". O
anticristo surgirá num tempo de profunda desatenção à voz do juízo de Deus (Mt
24.37-39). Esse tempo será como nos dias de Noé.
A manifestação do
anticristo impedida
O
anticristo escatológico ainda não se manifestou porque sua aparição está sendo
impedida por ALGO (2.6) e por ALGUÉM (2.7). O apóstolo Paulo diz: "E,
agora, sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião própria.
Com efeito, o mistério da iniquidade já opera e aguarda somente que seja
afastado aquele que agora o detém" (2.6,7, grifos do autor). Convém
observar que, em 2 Tessalonicenses 2.6, Paulo se refere ao repressor de modo
neutro ("o que o detém"), enquanto em 2 Tessalonicenses 2.7, usa o gênero
masculino ("aquele que agora o detém").
A
palavra grega kairós, traduzida por
"ocasião oportuna", nos revela que o anticristo só aparecerá no
momento certo, ou seja, no momento determinado por Deus. Warren Wiersbe diz que
assim como houve uma "plenitude do tempo" para a vinda de Cristo (Gl
4.4), também haverá uma "plenitude do tempo" para o surgimento do
anticristo, e nada acontecerá fora do cronograma divino.
O
que é esse ALGO? Quem é esse ALGUÉM? Agostinho de Hipona era da opinião que é
impossível definir es¬ses elementos restringidores. Outros escritores,
entretanto, pensam que Paulo está se referindo aqui ao Espírito Santo, uma vez
que ele pode ser descrito tanto no gênero masculino como no neutro (Jo 14.16,17;
16.13) e também ele é apontado como aquele que restringia as forças do mal no
Antigo Testamento (Gn 6.3).
Howard
Marshall, por sua vez, é da opinião que Deus é quem está por trás da ação
adiadora da manifestação do homem da iniquidade. A maioria dos estudiosos,
entretanto, entende que o ALGO é a lei e que o ALGUÉM é aquele que faz a lei se
cumprir. É por isso que o anticristo vai surgir no período da grande apostasia,
ou seja, da grande rebelião, quando os homens não suportarão leis, normas nem
absolutos. Então, eles facilmente se entregarão ao homem da ilegalidade, o
filho da perdição. 29 Enquanto a lei e a ordem prevalecerem, o homem da
iniquidade está impossibilitado de aparecer no cenário da História com seu
programa de injustiça, blasfêmia e perseguição sem precedentes. O apóstolo via
no governo e seus administradores um freio para o mal. Entretanto, quando a
estrutura básica da justiça desaparece, e quando os juízos falsos e as
confissões fraudulentas se trans-formam na ordem do dia, então o cenário se
acha preparado para a revelação do homem da iniquidade.
O poder do anticristo
identificado
O
anticristo virá no poder de Satanás. Ele fará coisas espetaculares e milagres
estupendos pela energia de Satanás. Ele não será um homem comum nem terá um
poder comum. O anticristo se manifestará com um grande milagre (Ap 13.3). Ele
vai distinguir-se como uma pessoa sobrenatural, por um ato que será um
simulacro da ressurreição. Esse fato é tão importante que o apóstolo João o registra
três vezes (Ap 13.3,12,14). Certamente não será uma genuína ressurreição dentre
os mortos, mas será o simulacro da ressurreição, produzido por Satanás. O
propósito dessa misteriosa transação é conceder a Satanás um corpo. Satanás
governará em pessoa. O anticristo será uma espécie de encarnação de Satanás.
O
anticristo vai realizar grandes milagres. Diz o apóstolo Paulo: "Ora, o
aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e
sinais, e prodígios da mentira" (2.9,10). A palavra grega energeia, traduzida por
"eficácia", é empregada com frequência para a operação sobrenatural.
Atualmente,
vivemos numa sociedade ávida por milagres. As pessoas andam atrás de sinais e
serão facilmente enganadas pelo anticristo. Ele vai ditar e disseminar falsos
ensinos (2.11). Nesse tempo, os homens não suportarão a sã doutrina (l Tm 4.1).
As seitas heréticas, o misticismo e o sincretismo de muitas igrejas pavimentam
o caminho para a chegada do anticristo.
Satanás
dará poder a seu falso messias para que ele realize "[...] sinais, e
prodígios da mentira" (2.9). Trata-se, sem dúvida, de uma imitação de
Cristo, que realizou "[...] milagres, prodígios e sinais" (At 2.22).
Warren Wiersbe descreve essa incansável tentativa de Satanás imitar a Deus, como
segue:
Satanás sempre foi um
imitador. Existem falsos cristãos no mundo que, na verdade, são filhos do diabo
(Mt 13.38; 2Co 11.26). Ele tem falsos ministros (2 Co 11.13) que pregam um
falso evangelho (Gl 1.6-9). Existe até mesmo uma "sinagoga de Satanás"
(Ap 2.9), ou seja, um grupo de pessoas que pensa estar adorando a Deus, mas, na
verdade, adora ao diabo (I Co 10.19-21). Esses cristãos falsos possuem uma
justiça falsa que não é a justiça salvadora de Cristo (Rm 10.1-3; Fp 3.4-10).
Eles têm uma certeza falsa que se mostrará inútil quando enfrentarem o
julgamento (7.15-29).
O
propósito dos milagres de Deus é conduzir as pessoas à verdade; o propósito dos
milagres do anticristo será o de levar as pessoas a crer nas mentiras. Paulo os
chama de "prodígios da mentira" (2.9), não porque os milagres não
sejam reais, mas porque convencem as pessoas a crer nas mentiras de Satanás.
O
anticristo vai governar na força de Satanás. "Deu-lhe o dragão o seu
poder, o seu trono e grande autoridade" (Ap 13.2). Na verdade, quem vai
mandar é Satanás. Os governos subjugados por ele vão estar sujeitos a Satanás.
Esse vai ser o período da história denominado por João o "pouco
tempo" de Satanás (Ap 20.3). Esse será o tempo da grande tribulação. O
governo do anticristo vai ser universal, pois Satanás é o príncipe deste mundo.
O mundo inteiro jaz no maligno (l Jo 5.19). Aquele reino que Satanás ofereceu a
Cristo, o anticristo o aceitará. Ele vai dominar sobre as nações:
"Deu-se-lhe ainda autoridade sobre cada tribo, povo, língua e nação"
(Ap 13.7). O governo universal do anticristo será extremamente cruel e
controlador (Ap 13.16,17). O seu poder parecerá irresistível (Ap 13.4).
Os seguidores do
anticristo apontados
Os seguidores do
anticristo podem ser descritos de cinco maneiras bem distintas:
Em
primeiro lugar, eles não acolhem o amor
da verdade (2.10). A verdade de Deus não lhes interessa nem lhes apetece.
Eles têm repúdio e aversão pela verdade. Veem-na como algo desprezível. Esse
será o tempo da apostasia, a grande rebelião.
Em
segundo lugar, eles não dão crédito à verdade (2.12). Eles
serão julgados não pelo pecado da ignorância, mas pelo pecado da rejeição
consciente da verdade. Eles desprezam a verdade, não porque a desconhecem, mas
porque a abominam e a transformam em mentira e dão crédito à mentira enquanto
repudiam a verdade (2.11).
Em
terceiro lugar, eles se deleitam na
injustiça (2.12). A razão e a emoção caminham juntas. Eles rejeitam a
verdade e por isso se deleitam na injustiça. A impiedade desagua na perversão
(Rm 1.18). A apostasia desemboca na corrupção moral. A teologia errada
desemboca em vida errada. O prazer do ímpio está naquilo que Deus abomina. Ele
se deleita naquilo que provoca náuseas em Deus. Jesus deixa esse ponto claro,
quando diz: "O julgamento é este: que a luz veio ao mundo, e os homens
amaram mais as trevas do que a luz; porque as suas obras eram más" (Jo
3.19).
Em
quarto lugar, eles são entregues por Deus
à operação do erro (2.11). Deus sentencia os seguidores do anticristo,
dando a eles o que sempre buscaram. Eles não acolheram o amor da verdade nem
deram crédito a ela. Então, como julgamento, Deus lhes entrega à operação do
erro para darem crédito ao que amam, à mentira. A culpa da condenação do homem
é só do homem. Quando o homem se perde, é sempre pela própria culpa, nunca de
Deus, diz William Hendriksen. Nessa mesma linha de pensamento, Howard Marshall
diz que aqueles que se recusam a crer e a aceitar a verdade descobrem que o
julgamento lhes sobrevêm na forma de incapacidade de aceitar a verdade. O que o
versículo ressalta é que esta é uma ação deliberada de Deus. Quando as pessoas
espontânea e reiteradamente recusam tanto as promessas quanto as ameaças
divinas, rejeitando tanto a Deus quanto suas mensagens, Deus mesmo as endurece
a fim de que fiquem incapacitadas para o arrependimento e aptas para crerem na
mentira do anticristo. William Hendriksen ilustra este fato assim:
Quando Faraó endurecia
seu coração (Ex 7.14; 8.15,32; 9.7), Deus endurecia o coração de Faraó (Ex
9.12). Quando o rei de Israel odiava os genuínos profetas de Deus, então o
Senhor lhe permitia ser enganado, colocando um espírito mentiroso nos lábios de
outros profetas (2Cr 18.22). Quando os homens praticam a impureza, Deus os
entrega às luxúrias de seus corações para a impureza (Rm 1.24,26). E quando
obstinadamente recusam reconhecer a Deus, ele finalmente os entrega a um estado
mental corrompido e a uma conduta imunda (Rm 1.28).
Em
quinto lugar, eles são julgados e
condenados (2.10,12). Os seguidores do anticristo serão julgados (2.12) e
condenados à perdição. Eles perecem (2.10). O destino daqueles que rejeitam a
Cristo e engrossam as fileiras do anticristo será o mesmo do dragão e do
anticristo, o lago de fogo (Ap 20.10,15). Quem não anda no Caminho da vida, que
é Cristo, caminha numa estrada de morte!
A derrota do anticristo
consumada
O
anticristo não será derrotado por nenhuma força da terra. Ele parecerá um
inimigo invencível (Ap 13.4). Porém, quando Cristo vier na sua glória o matará
com o sopro da sua boca e com a manifestação da sua vinda (2.8). Os verbos
"matar" e "destruir" não significam aniquilar, pois
Apocalipse 20.10 indica que Satanás e seus ajudantes serão atormentados no lago
de fogo para sempre. O anticristo será quebrado sem esforço de mãos humanas (Dn
8.25). Jesus vai tirar o domínio do anticristo para destruí-lo e o consumir até
o fim (Dn 7,26). Cristo colocará todos os seus inimigos debaixo dos seus pés (I
Co 15.24,25). C) anticristo será lançado no lago do fogo que arde com enxofre
(Ap 19.20). O anticristo será atormentado pelos séculos dos séculos (Ap 20.10).
A
igreja selada por Deus (Ap 9.4) preferirá a morte à apostasia e assim vencerá o
dragão e o anticristo (Ap 12.11). Aqueles cujos nomes estão no Livro da Vida
não adorarão o anticristo (Ap 13.8) nem serão condenados com ele, mas reinarão
com Cristo para sempre.
William
Barclay, conclui a análise do texto em tela, sugerindo três aplicações práticas
oportunas:
Há uma força do mal no mundo.
O mistério da iniquidade já opera no mundo preparando o cenário para o
aparecimento do homem da iniquidade. Muitos caminham despercebidos sem atentar
para os perigos. Quando o gigantesco e seguro Titanic chocou-se em um iceberg
no começo do século passado, houve uma grande perda de vidas. Antes do
acidente, havia um arrogante senso de segurança na inexpugnabilidade do navio.
Na
estreia do grande transatlântico, quando mais de mil pessoas faziam a viagem
dos sonhos para Nova York, não houve quase nenhuma instrução sobre a maneira de
evacuar o navio em caso de acidente. Quase todo o tempo foi usado para falar
sobre os deleites que o navio oferecia. Quando o navio começou a afundar, o
pânico encheu o coração dos passageiros. Então é que foram perceber que não
havia botes salva-vidas para todos. Por conseguinte, centenas de pessoas foram
engolidas pelas águas geladas do Atlântico Norte.
Há
muitos que navegam em águas perigosas ainda hoje. Poucos estão preparados para
o dia do julgamento. Enquanto o mundo afunda no abismo do pecado, a igreja é
desafiada a alcançar os povos da terra para Cristo, oferecendo-lhes um seguro
salva-vidas.
Deus tem o controle.
O iníquo, o filho da perdição, só aparecerá no tempo que Deus determinar e terá
seu poder limitado, seu tempo limitado e sua derrocada lavrada. Até mesmo o mal
mais hediondo está sob o controle de Deus.
O triunfo final de Deus é seguro. Ninguém poderá
opor-se a Deus e prevalecer. O iníquo fará proezas e enganará a muitos, mas
chegará o momento em que Deus dirá: "Basta". Então, ele será lançado
no lago de fogo e será atormentado pelos séculos dos séculos





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